*Ipojuca Pontes

Já se pode dizer
sem nenhum
constrangimento que
o affair Brasil versus
Bolívia não passou
de um qüiproquó armado
e em plena evolução
nos bastidores
do Foro de São Paulo?
esta, como se
sabe, uma entidade integrada pelas forças das
esquerdas no espaço latino-americano, que
hoje detém o comando político-ideológico de
pelo menos oito países do continente (Argentina,
Brasil, Cuba, Venezuela, Chile, Bolívia,
Uruguai, Equador), com a possibilidade de
tomar conta de mais quatro (México, Peru,
Nicarágua e El Salvador), nos próximos meses,
com o objetivo de "recuperar na América Latina
o que foi perdido no Leste Europeu"
conforme reza a cartilha totalitária de Fidel
Castro esboçada logo após a queda do Muro de
Berlim.
"Precisamos preparar um caminho sem volta, que não tenha retorno"
De um discurso internacionalista de Lula
Sim, é real: para os observadores mais
atentos, já é perceptível
na América Latina o entendimento
de que, ao
lado da tomada do continente
pelas forças esquerdistas,
cresce a
pinimba do grupo "nacional-populista" considerado
revolucionário e radicalmente
anti-americano,
liderado por Fidel Castro/
Hugo Chavéz/Evo Morales, contra o bloco tido
como moderado, ou "neoliberal", estrategicamente
travestido de social-democrata, integrado, entre
outros mandatários, por Lula, Michelle
Bachelet, Néstor Kirchner e Tabaré Vasquez -
uma gente, ao que se diz, mais racional e capaz
de cozinhar o amargo prato socialista (e também
anti-americano) em banho-maria.
Com efeito, para definir quem manda em
quem e no quê, o ousado avanço de cocalero
Morales sobre as refinarias da Petrobrás, tramada
entre os dias 28 e 29 de abril em Havana,
está sendo interpretado pelos analistas não
apenas como um ato de "soberania nacional",
mas, sobretudo, como um passo determinado
do bloco bolivariano rumo à liderança do "processo
de transformação" do continente. Com o
apoio do experiente Fidel Castro e a decisiva
participação de asseclas da DGI - o serviço de
inteligência cubano -, o coronel Chávez já
investe na região algo em torno de US$ 200
milhões diários, com vista à formação da Grande
Pátria ou seja, uma América Latina totalmente
socialista.
Tal como um novo Lenin das selvas
tropicais, bem-fornido pelo dinheiro abundante
do petróleo (e, agora, do gás boliviano),
Hugo Chávez Frias está com tudo e não está
prosa: ele, de uma só vez, açula com
petrodólares o populismo nacionalista de
Ollanta Humala, para reabilitar o Peru do
ultranacionalista Velasco Alvarado; abastece
firme a candidatura de López Obrador contra
o candidato do inimigo Fox, no México do
Comandante Marcos; promete o retorno do
guerrilheiro Daniel Ortega e da Frente
Sandinista ao comando da Nicarágua; e, com
gastos maciços, concentra pesado apoio logístico na ação virulenta da Frente Farabundo
Marti de Libertação Nacional (FMLN) em El
Salvador, com o objetivo de se apossar do
governo.
E mais: atua, fortemente, com o apoio de Castro e das bilionárias FARCs do "saudoso"
Manoel Marulanda, o Tirofijo, na
desestabilização do processo sucessório da
Colômbia de Álvaro Uribe, ao tempo em que
investe de forma clandestina no fortalecimento
da "nova fase" da Frente Zapatista de
Libertação Nacional, no México, na reativação
do famigerado Sendero Luminoso, no Peru, e
na expansão do virulento MST de Stédile, no
Brasil, para não falar nos ataques permanentes
ao "imperialismo ianque" de Bush, sobre o
qual desfecha impropérios diários, para reprodução
entusiástica da "imprensa burguesa" e
do anti-americanismo que se alastra pela
América Latrina.
Neste conflito surdo das esquerdas dentro
do espaço continental, considerado maduro
para uma nova experiência comunista,
reedita-se o clássico entrevero entre os blocos
bolcheviques e mencheviques,
na Rússia pré-revolucionária
de 1917. Dentro deste figurino,
o coronel Hugo Chávez
representaria o papel do
bolchevique radical, a investir
contra um governo provisório
composto por socialistas pusilânimes,
cujo papel já se findara
e que, com um simples
peteleco, estaria mais que maduro
para ser tocado do Palácio de Inverno.
As forças do socialismo menchevique,
por sua vez, na AL de hoje representadas pelas
facções "moderadas" de Lula, PT e aliados,
parceiras do projeto "neoliberal", não teriam
mais um papel a cumprir no novo espaço
comunista a ser definitivamente implantado
no continente, visto que são forças contaminadas
pela corrupção, pelo exercício da ambigüidade
diplomática e pelo apodrecimento revolucionário
dos seus quadros: "El compañero
Lula es todavia confiable?" teria indagado, na
sua última viagem a Havana, o coronel Chávez
a um circunspeto Fidel Castro, rejuvenescido
pela solidária política energética bolivariana,
traduzida na entrega diária de 90 mil barris de
petróleo nos portos de Cuba.
Só para completar o quadro, na promessa
de voltar ao explosivo assunto: no Brasil
atual, enquanto os representantes da esquerda
acadêmica, amparados na grana fácil das OGNs,
embalam a política externa de "comer o prato
pelas beiradas", o Itamaraty de Lula, segue o
mesmo diapasão e recomenda uma "paciência
estratégica", tendo em vista a possível
"integração regional", a ser efetuada a partir do
problemático consenso dos pactos da Comunidade
Sul-Americana de Nações (CASA) e da
Comunidade Andina (CAN) na busca de abrir
caminhos, sem tempo marcado, para se chegar,
pelas armas do voto corrompido, ao predomínio
comunista no infeliz continente.
O resto fica por conta do bombardeio da
sociedade civil e militar pelo PCC, apoiado
pelas FARCs ? estas, sempre alimentadas pelo
combustível bilionário do narcotráfico
* Ipojuca Pontes
Escritor, Cineasta e Jornalista.
Ex-Secretário Nacional de Cultura |