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*Peter Wilm Rosenfeld
Estamos a apenas
seis meses do término do governo do Sr. da Silva.
Penso que já se possa fazer uma apreciação inicial
das realizações, das não-realizações e de uma
apreciação geral do que o governo fez, desfez ou não
fez nesses quase oito anos decorridos desde a posse.
Claro que não é
possível dizer-se que o governo nada fez nesse
período. Fez, e muito, só que uma grande parte do
que foi feito foi ou será altamente prejudicial ao
País em um futuro bem próximo. Essa sim, uma
verdadeira herança maldita.
Certamente o maior
mal feito ao País foi a banalização da corrupção.
Verdade que o
Brasil nunca se notabilizou pela honestidade e
seriedade de seus políticos. Desde tempos
imemoriais, em nossos governos sempre houve
corrupção.
Mas era
razoavelmente moderada e, o que é mais importante,
localizada. Não mais.
Agora é
generalizada, nos três níveis de governo e nos três
poderes. A corrupção é uma praga que, como erva
daninha, se alastra, se infiltra, de forma quase
imperceptível mas permanente em nossos governos.
A honestidade, que
deve ser algo normal e natural, passou a ser
virtude, a ponto de ser mencionada quando se analisa
o perfil das pessoas.
Penso ser
totalmente desnecessário citar casos, evidências e
exemplos. São completa e amplamente notórios, com
seu marco de início no "mensalão".
O mais triste,
porém, talvez a mola mestra para a disseminação
dessa praga, foi a posição do Presidente da
República, sempre negando ter qualquer conhecimento
do que estava ocorrendo. E isso que havia evidências
claras de que tinha sido publicamente alertado para
o fato por um parlamentar que integrava a base de
apoio a seu governo.
Aliás, o fato de o
Sr. da Silva sempre alegar desconhecimento de fatos
negativos que vinham ocorrendo tornou-se motivo de
chacota no País.
Essa atitude
presidencial, somada à total e absoluta falta de
penalização dos corruptos e dos agentes da corrupção
foram os responsáveis pela ampla disseminação do mal
(dos quarenta membros do Congresso indiciados pelo
Ministério Publico apenas dois sofreram a pena de
cassação de seus mandatos; a nenhum dos outros
trinta e oito foi aplicada qualquer sanção !).
Bem, mas chega de
corrupção. Vamos a outros tópicos desta rápida
análise.
A segunda
malfeitoria do governo do Sr. da Silva foi o absurdo
aparelhamento da máquina governamental.
Com uma única
exceção, o Banco Central, em todos os cargos do
governo, desde Ministros e abarcando todas as
esferas inferiores, foram nomeados integrantes do PT
ou pessoas estreitamente ligadas ao partido, sem
qualquer avaliação de mérito.
Nenhum dos fatores
que deveriam ser levados em consideração antes da
admissão de um funcionário foram aplicados. O QI
requerido foi o famoso "quem indicou".
E não foi pouca a gente
admitida. O número que vem sendo citado é da ordem
de 200 mil, e com certeza não se estará nada
distante do número real. A seriedade
desse problema só será sentida e avaliada em sua
plenitude no futuro.
O terceiro e sério
problema é o da não-realização de quantidade enorme
de obras, por várias razões. Em geral, por
falta de planejamento correto. Os dois Planos de
Aceleração do Crescimento serviram exclusivamente
para que o governo trombeteasse o que pretendia
fazer, em sua imaginação ou, por vezes, realmente
pretendia. Mas muito pouco foi feito e, igualmente,
muito pouco está realmente em execução.
A maioria das
obras elencadas ainda está em processo de análise;
algumas estão em processo de licitação. O resto todo
está no papel, quando realmente está.
O quarto grande
problema está na dívida pública. O governo cita como
uma de suas grandes realizações a de ter pago toda a
dívida externa e de ter acumulado uma vultosa
reserva em moeda estrangeira, mas não se refere, em
momento algum, à fantástica dívida interna (com
brutal aumento no governo atual).
O alinhamento do
Brasil com países governados por regimes
não-democráticos se constitui em outro fato triste.
Além disso, o Brasil não conseguiu emplacar um único
brasileiro em organizações internacionais de porte,
sendo derrotado por candidatos de outros países.
Ademais, a doentia obsessão de conseguir um assento
permanente no Conselho de Segurança da ONU fez com
que fossem criadas embaixadas em grande número de
países sem qualquer interesse maior para o País.
Pode ser afirmado
que esses anos foram um período negro para o
Itamarati, antes conhecido pela excelência de seus
diplomatas. Ademais, política exterior é um assunto
sério para ser conduzido como o foi, por um trio
(Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco
Aurélio Garcia); e que trio !
Encerro esse
texto, sem ter esgotado a matéria. Claro que se
perguntará "Se o governo foi tão ruim assim, como se
explica o grande prestígio do Sr. da Silva ?
Respondo: por sua
demagogia e por suas incoerências, além de por seu
apelo pessoal. Sem dúvida, o Sr. da Silva é figura
muito popular, um operário que conseguiu ascender à
Presidência da República !
Mas não estava (e
continua sem estar) preparado para o cargo.
*pwrosen@uol.com.br
Porto Alegre (RS),
23 de junho de 2010
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