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*Heitor De Paola
Engana-se quem pensa que o Brasil
fez papel de bobo no recente acordo nuclear com
a Turquia e o Irã. Torna-se evidente a
estratégia de todos os países envolvidos,
principalmente Estados Unidos e Rússia, no
interesse de seus programas diplomáticos e de
desenvolvimento da energia atômica, seja
claramente para fins pacíficos ou produção de
artefatos nucleares.
A maioria dos articulistas de
oposição comete um grave equívoco ao considerar
a acordo Brasil-Turquia-Irã sobre material
nuclear como uma gafe da diplomacia brasileira.
São comentários míopes, que só enxergam de
perto, o curto prazo, enquanto o núcleo do poder
petista exerce uma diplomacia visando o longo
prazo e objetivos maiores. Como já demonstrei
antes (http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=1319)
Marco Aurélio Garcia, o verdadeiro artífice da
diplomacia brasileira não é qualquer bocó. Além
disto, outros fatores não têm sido levados em
consideração.
Um deles é a avaliação errada da posição de
Obama. Poucos entenderam, e menos ainda
admitiram, que sua eleição representou a guinada
para o enfraquecimento dos EUA e seu
desarmamento unilateral. A idéia de um mundo
‘multipolar’, abdicando da posição hegemônica
americana, não é uma balela: é o leimotiv da
nova diplomacia americana. Desde o governo
Carter, passando por Clinton, que os liberais da
esquerda Democrata, o shadow party, tentam fazer
a inversão entre amigos e inimigos. Nunca é
demais relembrar que foi exatamente com o Irã,
além da Nicarágua, que Carter inaugurou esta
política suicida, patrocinando a queda do Xá e a
Revolução Islâmica dos Aiatolás. Seguindo seus
passos, Obama, ainda candidato, anunciou que sua
política para este país seria de abertura e
diálogo.
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Brasil, Irã e
Turquia |
A truculência de Ahmadinejad
impediu uma aproximação direta. Nada mais
razoável do que usar a disposição do Brasil para
assumir papel de liderança mundial, instigado
por Moscou: segundo a Agência Reuters, o
presidente Barack Obama escreveu para Lula: “Uma
decisão do Irã de enviar 1.200 quilos de urânio
de baixo enriquecimento para fora do país
geraria confiança e diminuiria as tensões
regionais por meio da redução do estoque
iraniano”. Para salvar a face e enfrentar a
enorme oposição interna, que inclui membros mais
conservadores de seu próprio partido,
acrescentou: “Nós observamos o Irã dar sinais de
flexibilidade ao senhor e outros, mas,
formalmente, reiterar uma posição inaceitável
pelos canais oficiais da AIEA (Agência
Internacional de Energia Atômica)”.
Outro ponto, praticamente desconhecido pela
mídia mesmo a de oposição, é o interesse da
Rússia (http://beta.thehindu.com/opinion/op-ed/article433805.ece)
em vencer o cabo-de-guerra com os EUA na
questão. O Presidente russo, Dmitri Medvedev
praticamente montou o acordo nos últimos
encontros com Lula e Erdogan. Há pouco mais de
um mês ele discutiu a proposta em Brasília e
Ankara, após uma escala em Damasco, um dos
maiores aliados de Teerã. Medvedev insistiu com
Teerã para aceitar a iniciativa
turco-brasileira, dizendo ser esta a última
chance antes das sanções do Conselho de
Segurança. Logo depois Lula estava em Moscou de
onde voou para Teerã. Obama percebeu os ganhos
de Moscou e, por esta razão acionou os demais
membros do CS para acionar as sanções.
É preciso muita ignorância
da grande estratégia envolvida ou má fé para
considerar que houve desprezo e que Lula bancou
o palhaço. Vale lembrar que nem na Índia (http://beta.
thehindu.com/opinion/editorial/article433831.ece)
nem em sites antiterroristas americanos (http://www.thejc.com/news/world-news/32004/analysis-new-nuclear-deal-iranian-triumph)
o consideram gafe ou besteira. Charles
Krauthammer considera que o acordo revela que
‘potências em ascensão, aliados tradicionais dos
EUA, observando a administração Obama em ação,
decidiram que não custava nada alinhar-se com os
maiores inimigos da América e não com com um
Presidente dado a desculpas e apaziguamentos’.
Como bem o disse Garcia, o Brasil não é moça de
recados e utilizou os interesses de Obama para
implementar os seus. Só não vê quem não quer que
o Brasil também planeja desenvolver artefatos
nucleares. Produz urânio, assim como sua aliada
Bolívia, já construiu suas próprias centrífugas
em Aramar*, onde funcionam o Laboratório de
Enriquecimento Isotópico e a Usina de
Demonstração de Enriquecimento (USIDE),
destinados ao futuro submarino nuclear. Tendo
assinado o Tratado de Não-Proliferação está com
as mãos amarradas pela AIEA.
Imaginemos – acredito que certa
dose de imaginação deva fazer parte de
avaliações políticas – que o Brasil queira usar
o Irã para enriquecer seu próprio urânio. Além
de fornecer quantidades que o Irã precisa para
preencher a quota de 1.200 kg, ainda pode
enriquecer o seu por lá.
Isto poderia explicar, também, porque da escolha
de uma candidata tão fraca para a Presidência:
Dilma fez parte da equipe que elaborou o plano
energético do Lula já em 2002 e foi Ministra das
Minas e Energia.
* Depois deste artigo ter sido escrito tive
acesso à notícia publicada pelo Diario las
Américas: Brasil estará preparado para completar
ciclo de uranio este año , dice militar (http://www.diariolasamericas.com/news.php?nid=100158&cha=32),
o que corrobora minhas idéias.
*Médico, escritor e analista
político.
hdepaola@terra.com.br
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