* Adherbal Uzêda
Tantas vezes, na juventude, concordei com o austríaco Stephan Zweig, que imaginara um futuro apreciável para o Brasil. Torcia para tanto, mesmo porque, além da potencialidade que temos, fui educado em colégio que pregava o civismo. Este continua vivo em mim, embora reconhecendo que o fulgor patriótico já não é o mesmo dos tempos idos, já que a postura nossa, nos dias atuais, não estimula a esperança.
Nos textos que redijo, bem gostaria de trilhar por caminhos outros, mais aceitáveis, desde que não entrassem em choque com a realidade vivida. Esta, no entanto, amofina aqueles que querem sentir o Brasil um país do futuro, respeitado por todos os ângulos que se o queira examinar, não só pelo desenvolvimento material, como a sua economia estável, de certo modo. Acredito também, que o mais respeitado valor do jornalismo é o da verdade, sem rodeios. O papel da imprensa é dos mais nobres, na formação de uma nação, cabendo-lhe não esconder o que se passa de mal na vida de um país, nem furtando-se aos aplausos pelos atos virtuosos. Isto é o que se pode dizer politicamente correto, já que a expressão é tão corriqueira. Ruy Barbosa, o mais notável dos baianos, sabiamente dissera que a imprensa é a vista da Nação. Para tanto, a verdade.
Os parágrafos acima fazem por merecer, já que não costumo dar sempre tintas coloridas ao quanto comento. Temos um país rico, valoroso, senhor de um povo trabalhador, inteligente e criativo, mas que, infelizmente, sua maioria vive na contramão dos princípios cívicos. Não luta, no quanto lhe cabe, para promover um Brasil do futuro, com glória exaltada. Este nosso povo se enche de orgulho por muito pouco, jactando-se de uma grandeza que passa distante da real, cujo selo de qualidade fica a desejar. Assim, estou aproveitando a oportunidade, quando aproximam-se os jogos da Copa do Mundo, único momento em que nossa gente enche o peito e exibe um patriotismo de vintém. Patriotismo desbotado, em que os pés se sobrepõem à cabeça e aos ditames da honra e da compostura de um povo, em especial, no trilhar da vida pública.
Estamos, pois, nos acomodando aos episódios indignos que surgem. Não há maior reação a eles, na medida necessária, a fim de que seja dado um basta. Onde andam os caras-pintadas de 1992, que depuseram Collor de Mello? Parecia que ali surgia um novo Brasil, com os jovens à frente. Ledo engano. Onde estão esses “ patriotas da bola ”, que silenciam diante dos mensaleiros; dos sanguessugas; dos cartões corporativos; das passagens aéreas vendidas no Congresso; das nomeações ocultas sem publicação no Diário Oficial da União; das obras públicas superfaturadas e tantas e tantas outras bandalheiras? Por que não fazermos um movimento sério, pedindo moralidade no País? Alguém, por acaso, foi para as ruas, a fim de gritar a favor do projeto que veta os fichas-sujas de candidatarem-se a cargos eletivos? Vamos acabar com os indignos, que enxugam lágrimas no lenço da desfaçatez.
Ora, precisamos, como exemplo de verdadeiro patriotismo, de um povo atuante, que vá em marcha cívica, com bandeiras desfraldadas, para porta dos palácios, dos parlamentos e dos tribunais, exigir (não é pedir) um basta aos desmandos ocorridos no três Poderes, para que a moralidade volte a fazer morada naquelas casas públicas. Quando as autoridades sentirem o peso do povo com a sinceridade de propósitos, as coisas, por certo, terão um novo rumo no País. Isto, sim, é civismo. Não esse falso patriotismo que rola na Copa do Mundo, de quatro em quatro anos.
Bem, enquanto nada disso acontecer, vamos ser brasileiros, profissão esperança, como alguém já disse.
* Jornalista - Salvador/BA
|