*Nilvado Cordeiro
Ter presenciado os trabalhos da Confecom,
a 14 de dezembro,
tirante o lado absolutamente enfadonho e repetitivo, foi
rico para observar um acabado exercício
de mergulho na Segunda Realidade, sem
qualquer âncora com a realidade factual.
A Segunda Realidade foi descoberta
por Cervantes e o personagem Dom
Quixote narra com requintes literários
essa alucinação típica dos tempos modernos.
O reino da Segunda Realidade
é o reino dos revolucionários, dos
jacobinos empenhados em moldar a realidade
a seus preconceitos.
O primeiro sintoma dessa loucura é
o formato da Conferência. Os coordenadores
e os delegados se comportam como
se estivessem em regime de uma assembléia constituinte. Os delegados se revezam
ao microfone como se estivessemem
uma câmara de deputados, elaborando
textos com força de lei. Daí porque são
tão ciosos da representatividade dos delegados,
a ponto de segregarem
os observadores fora do
recinto de votação. Uma pessoa
tentou entrar no recinto exclusivo dos delegados e,
descoberta, foi expulsa com
grande escândalo, escoltada
por seguranças.
O exercício da Confecom
é um simulacro de sovietização,
como se esse formato pudesse
sobrepor e substituir o Poder Legislativo.
Uma perfeita alucinação, como
se vê.O eixo é sempre modificar o marco
legal e se apropriar, de alguma forma, de
uma fração dos impostos. E também usar
o poder de polícia estatal contra o empresariado, tido e havido como inimigo
da chamada sociedade civil organizada, ou seja, eles mesmos, os
militantes esquerdistas. Não escondem
sua fé na estatização e no uso do poder
de Estado contra os empresários. Não escondem
que, se puderem, elevam a carga
tributária até o limite do sufoco econômico
da iniciativa privada.
O democratismo é outra dimensão
do conclave sovietizado. A exaltação da
diferenciação por sexos (gêneros), por
raças e por região não esconde a deliberada
vontade de dividir a sociedade em segmentos antagonizados artificialmente.
Uma loucura perigosa.
Nas manifestações em que os delegados
da Febratel e da Abra tomaram
posição pró-mercado ficou claro que estes
são peixes fora dágua, estreantes em assembléias leninistas. Mal sabem que
esse tipo de assembléia historicamente
tem sido chamado para o exercício de
campeonato de radicalismos contra a economia
de mercado e contra a sociedade
aberta. Para os que estão existencialmente
mergulhados na Segunda Realidade o
socialismo é a meta a ser alcançada e a
economia de mercado uma estrutura a ser
destruída.
A Confecom é uma assembléia de
homens-massa. Uma perfeita alucinação
coletiva, uma coleção de ações estúpidas.
Ela só não mergulha em entropia
inconclusiva porque, por detrás da aparente
autonomia dos delegados, operam os
agentes do partido. Estes impõem suas
decisões e sua disciplina, sendo um exemplo
cabal a decisão de manter a proporcionalidade
das propostas, como queria
o segmento empresarial. Portanto, na loucura
da Segunda Realidade percebe-se
método, a racionalidade do mal operando.
A máscara democrática cai à simples
observação. Na verdade, todo o circo
não passa de uma dinâmica
de grupo controlada pela
qual o partido exerce seu
poder despótico.
O segmento empresarial
está aqui simplesmente
porque o partido entendeu
ser tático dividir os empresários, aproveitando-se do
ódio que todos comungam
para com a Rede Globo. Eu
me pergunto se os supostos ganhos que
possam advir da reconstrução do marco
legal compensa, para os empresários, a
destruição das defesas do livre mercado
e da sociedade aberta. Essa gente dos movimentos sociais não tem nenhuma
contemplação para com seus inimigos de
classe. Tático ou não, o que querem afinal
é radicalmente contrário aos interesses
mais estratégicos da Febratel e Abra.
No recinto percebe-se a tensão permanente
existente entre os militantes esquerdistas
e os delegados das empresas privadas.
Os delegados do segmento empresarial
ficaram apropriadamente confinados
à ala direita de quem entra no auditório.
Nada de bom pode emergir da Segunda
Realidade que não o delírio deletério da loucura. Pactuar com loucos é suicídio. (Enquanto escrevo este artigo a
platéia entoa, a plenos pulmões; Não
não não à privatização. Será talvez o
grande recado dos agentes sovietes aos
novos sócios da Telebrasil e da Abra).
* Economista - website nivaldocordeiro.org.
|