* Osmar José de Barros Ribeiro
Desde que assumiu o poder na Venezuela, Chávez tem deixado meridianamente claro o sonho de reconstituir a Grande Colômbia criada por Bolívar. Este, não resta dúvida, seria um objetivo válido se procurasse, por exemplo, em busca de objetivos políticos, econômicos e sociais comuns, criar uma confederação daqueles países ao norte da América do Sul. Porém, esse não é o caso já que Chávez, na verdade, idealizou uma união na qual seria dele a última e definitiva palavra.
Nos seus delírios de grandeza e contando com o apoio do presidente Lula, o histriônico Chávez imaginou até mesmo a construção de um gasoduto que, a partir da Venezuela, atravessaria o Brasil e chegaria à Argentina. Num terreno menos abstrato, comprou títulos da dívida portenha e emprestou a sua integral solidariedade, tanto política quanto financeira, aos atuais governantes do Equador e da Bolívia, bem como aos guerrilheiros das FARC colombianas. No entanto, com tantos petrodólares no bolso, é de se perguntar a razão de o metrô de Caracas estar sendo financiado pelo nosso BNDES. Coisas da política latino-americana!
O antiamericanismo, sempre presente na Ibero América, manifesta-se em inócuos protestos quanto à reativação da IV Frota e, agora, tem como motivo a utilização de bases colombianas por elementos norte-americanos voltados, prioritariamente, ao combate aos narcoguerrilheiros das já citadas FARC e, obviamente, para exercer alguma vigilância sobre as pretensões chavistas. De qualquer forma, os críticos esquecem que a IV Frota é apenas um comando e as belonaves que eventualmente vão constituí-la serão retiradas de outras formações navais; da mesma forma, esquecem que o EUA foi o único país que, sejam quais forem as suas motivações, se dispôs a dar apoio às Forças Armadas Colombianas em sua luta contra guerrilheiros e traficantes. Provavelmente, não fora tal solidariedade, hoje a Colômbia seria a própria representação do caos institucional. Assim, é de se perguntar: o que fizeram os vizinhos para auxiliar o combate dos colombianos ao narcotráfico? Por acaso o Brasil tem condições materiais de evitar que os insumos básicos para a produção de cocaína passem pelas suas porosas fronteiras e cheguem aos destinatários? A prisão de Fernandinho Beira-mar pelas autoridades colombianas, quando negociava com as FARC a troca de armas por cocaína, em que resultou de papável, salvo a sua condenação?
As ligações espúrias de autoridades venezuelanas e equatorianas com as lideranças das FARC, sobejamente provadas e comprovadas, deram em quê?
Sob o domínio intelectual da mais retrógrada posição esquerdista, aquela mesma que criada por Fidel Castro e Lula dá as cartas no Foro de São Paulo, o Brasil patrocinou a idéia da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), na doce ilusão de ser possível colocar, em um mesmo balaio, ovos de pata e de pintassilgo. Na verdade, ao fim e ao cabo, a esquerda imaginou e imagina um continente unido em torno de objetivos comuns, condição necessária para atingir níveis de influência não alcançáveis, ao menos no momento, por qualquer país considerado isoladamente. Trata-se do mesmo sonho acalentado pelo Foro de São Paulo.
Pretender que a Colômbia, sob o fogo cerrado dos governos de esquerda (que são maioria no continente) entenda-se com a Venezuela e o Equador; que o Peru e a Bolívia esqueçam os territórios perdidos para o Chile; que o Paraguai e a Bolívia façam de conta que a Guerra do Chaco não existiu; que Equador e Peru abandonem suas pretensões sobre fronteiras mal resolvidas, isso sem falar na enorme disparidade econômica, cultural, política, social e demográfica entre os países sul-americanos, é sonhar alto demais. Nada contra a integração, mas, é forçoso reconhecer, ainda há um longo caminho a ser trilhado.
O mais provável é que Chávez, com o apoio da UNASUL, veja na distribuição do irrisório efetivo norte-americano (1500 homens, entre militares e civis) por sete bases militares colombianas estrategicamente escolhidas, um impedimento para eventual aventura guerreira em apoio às já enfraquecidas forças das FARC, grupamento que sempre agiu inspirado por Cuba e tem assento no Foro de São Paulo. Não é crível que a UNASUL, em atenção às pretensões chavistas, exija da Colômbia “transparência” em assuntos de defesa nacional, quando nenhum país do mundo age dessa forma. Convém, além do mais, ter sempre na lembrança que, há quarenta e poucos anos, suas Forças Armadas lutam, em defesa do Estado, contra grupos guerrilheiros e cartéis de traficantes.
Há espaço para a cooperação entre as nações da América do Sul. Porém, é imperativo que sejam vencidos os dois inimigos que, atualmente, dão as cartas nos governos locais: a demagogia e o populismo, sob cuja sombra florescem regimes ditatoriais, de esquerda ou de direita.
* Coronel
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