*Osmar José de Barros Ribeiro
Assistimos, desde meados do século pas
sado, a uma série de acontecimentos que mudaram a face do mundo. A poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ruiu como um castelo de cartas e com ela a Cortina de Ferro. Foi o mesmo e inglório fim que, desde a mais remota antiguidade, atinge os impérios que buscam reunir, sob uma mesma bandeira, diferentes etnias, religiões e nacionalidades. A Comunidade de Estados Independentes, sucessora do que restou da URSS, vê-se às voltas com nacionalismos de fundo étnico e religioso que a ameaçam dividir mais ainda.
Hoje, em meio a uma crise econômica de âmbito mundial, embora o poderio militar, econômico e tecnológico dos Estados Unidos da América (EUA) ainda seja preponderante, novas forças despontam e o amanhã dos povos permanece uma incógnita. Na Ásia, na Europa e na África, há turbulência e indefinição quanto ao futuro. A paz, sonho de tantos, parece, a cada dia, uma condição muito difícil de ser encontrada.
Como pano de fundo, no palco mundial agitam-se as Organizações Não Governamentais (ONGs),ora apoiadas por governos e grupos industriais, ora atuando como franco-atiradoras, sempre buscando impor aos governos dos países menos desenvolvidos e portanto mais susceptíveis às pressões, seus objetivos nem sempre bem definidos e, não poucas vezes, contando com o decidido apoio de entidades religiosas de diferentes denominações.
Na América do Sul, inspirados no regime comunista cubano, governos de extração esquerdista assumiram o poder na maioria das nações e passaram a dedicar-se, com maior ou menor velocidade, à tarefa de enfraquecer as respectivas Forças Armadas.
O que vem acontecendo no Brasil quanto a tal objetivo é um exemplo claro da aplicação dos princípios esposados por Samuel P. Huntington, então professor da Universidade de Harvard, em seu livro “A Terceira Onda - A democracia no final do século XX”, do qual extraímos o seguinte texto: Deve ser reduzido drasticamente o número de unidades militares sediadas nas capitais e arredores. Elas devem ser deslocadas para as fronteiras e outros lugares despovoados e relativamente remotos... Devem ser proporcionados (às Forças Armadas) carros de combate, aviões, viaturas blindadas e equipamentos eletrônicos sofisticados. O equipamento novo os manterá contentes e ocupados (aos militares), tratando de aprender a manejá-los... Os militares devem ser advertidos de que só continuarão a receber seus brinquedos se tiverem bom comportamento... Alcançar e manter um grau de organização política capaz de mobilizar apoio nas ruas da capital em caso de tentativa de golpe militar. Se tudo isso falhar, abolir as Forças Armadas. (Os grifos são nossos).
Hoje, desde o malfadado governo FHC, tais conselhos vêm sendo seguidos de forma lenta, mas segura. Primeiro, com a criação do Ministério da Defesa, os Comandantes da Forças foram afastados da condição de assessores diretos do presidente da República. Depois, com o surgimento da Estratégia Nacional de Defesa (END), viram-se relegados a uma posição de terceiro escalão no organograma do governo. Embora a defesa das nossas fronteiras seja plenamente justificável, desejável e necessária, ela vem sendo feita com a transferência de Grandes Unidades e Unidades dos grandes centros e arredores para as fronteiras, conforme preconizado por Huntington, ficando ainda mais reduzida a influência das Forças Armadas, em especial a do Exército, junto aos jovens conscritos (já de si poucos em relação ao efetivo da população) e aos habitantes do ecúmeno brasileiro.
Outrossim, vale assinalar a forma de agir do MST e congêneres, contando com a “compreensão” e mesmo incentivo de órgãos governamentais, ao tempo em que, desde a criação de ministérios e secretarias especiais, o atual governo vem mobiliando os diferentes escalões governamentais com seus partidários e/ou aliados e simpatizantes, em sua grande maioria ligados aos meios sindicais. É a organização política capaz de mobilizar apoio nas ruas da capital em caso de tentativa de golpe militar preconizada por Huntington.
Recordemos, à luz de problemas recentes com a Bolívia, o Equador, a Argentina e agora com o Paraguai, as palavras de Ruy Barbosa ao afirmar que ... a primeira condição da paz é a respeitabilidade e da respeitabilidade, a força. A fragilidade dos meios de resistência de um povo acorda nos vizinhos mais benévolos veleidades inopinadas, converte contra ele os desinteressados em ambiciosos, os fracos em fortes, os mansos em agressivos....
Com elites dirigentes pouco afeitas ao estudo da História, depreciamos nossas conquistas e nosso passado, esquecidos de que importa menos a espessura das muralhas que a vontade de defender.
Isto posto, o que nos aguarda amanhã?
* Coronel Reformado
ojbr@wnet.com.br
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