
Volta e meia, considerando o êxito alcançado no Haiti, a imprensa, pretensamente representando a “voz das ruas”, aponta o emprego das Forças Armadas, em especial do Exército, na Segurança Pública. O próprio ministro da Defesa afirma que, sobre o tema, apresentará sugestões ao Congresso. Trata-se de um gesto no mínimo estranho, partindo de um jurista e, presume-se, profundo conhecedor da Constituição Federal. De resto, cabe lembrar que o atual governador fluminense, pertencente ao mesmo partido político do ministro pretendeu, ao assumir o governo, ter sob suas ordens militares federais.
Salta aos olhos, em particular daqueles que já tem uma longa vivência, tanto por força da idade, dos estudos ou da experiência, que o grande, o insopitável desejo da esquerda (e o governador fluminense é um dos seus elementos de proa) seria ver as Forças Armadas reduzidas ao papel de milícia, bem dentro dos objetivos de altos círculos internacionais que, sob as mais diversas alegações, imiscuem-se nos nossos problemas internos e propugnam, em última análise, a instalação de um governo mundial sob a égide do Conselho de Segurança da ONU.
A bem da verdade, em qualquer dos grandes centros onde a marginalidade campeia, o que se observa é um conluio envolvendo marginais (notadamente os traficantes de drogas), e autoridades públicas em diferentes níveis. Assim, cabe perguntar:
As Forças Armadas, na hipótese de serem empregadas na Segurança Pública:
1. receberão carta branca para eliminar o problema da corrupção nos organismos policiais?;
2. terão plena liberdade para agir contra as relações incestuosas existentes entre a marginalidade e o poder público?;
3. terão condições de resolver as clamorosas falhas da Justiça?
4. serão acoimadas de “violadoras dos direitos humanos” quando usarem os métodos de prisão e revista de suspeitos utilizados no Haiti?;
5. assumirão o controle dos órgãos de segurança pública?
Sem isso, sobre ser inócua, a presença das Forças Armadas somente viria desprestigiá-las. Há que considerar não ser o policiamento de ruas uma função militar, muito menos dar segurança a obras eleitoreiras em morros cariocas, estas com os lamentáveis resultados que se conhece. De mais a mais, uma ação de faxina geral nos organismos policiais demandaria, antes de qualquer coisa, a decretação de intervenção federal e isso, vamos e venhamos, está longe, muito longe, do pensamento de qualquer governador.
Mas não é somente nas cidades que o crime ganha mais e mais força.
No campo, os altos escalões governamentais, do Palácio do Planalto aos ministérios da Justiça, da Reforma Agrária e das Cidades assistem, mudos e impávidos, às crescentes e impunes violações da lei nas inúmeras invasões, depredações, interrupções de tráfego, etc., particularmente no sul, nordeste e norte do País, envolvendo instalações públicas e privadas, promovidas por sem-terra, sem-teto e índios.
E quando, eventualmente, uma “autoridade” concorda em manifestar alguma opinião, termina por postar-se em favor dos transgressores da Lei, com frases estereotipadas do tipo “trata-se de uma manifestação que busca chamar a atenção para o diálogo e o entendimento”, como se fosse possível diálogo e/ou entendimento com invasores de propriedades privadas ou prédios públicos, um crime cominado nos diplomas legais. O absurdo é de tal monta que até o assassinato de um segurança foi interpretado como um excesso compreensível.
Assim, perante tal quadro, é de se perguntar o que, na verdade, pretendem aqueles que buscam transformar as Forças Armadas em meros organismos policiais. Terão, por acaso, indagado o que pais e mães pensam sobre colocar seus filhos, entregues à Pátria para aprender a defendê-la, em confronto direto com marginais sem quaisquer escrúpulos? Em defesa de que e de quem? De subalternos interesses políticos e/ou pessoais?
A missão das Forças Armadas transcende de muito a Segurança Pública, voltada que é para a Segurança Nacional. Desvia-la da sua finalidade principal, sem outras e bem pesadas considerações, será um risco de proporções tais que a hipótese sequer deveria ser considerada por governantes idôneos e responsáveis.
Entretanto, estamos vivendo tempos estranhos. Ultimamente, motivações partidárias e ideológicas estão sendo sobrepostas aos reais interesses nacionais. Fala-se até mesmo em sonhos de perpetuação no poder. Além disso (ou por causa disso?) nota-se, sem muito esforço, a preocupação de apequenar as Forças Armadas. Com que objetivos? O que procuram tais pescadores de águas turvas?
Longe de mim a pretensão de aconselhar a quem quer que seja, mas, de qualquer forma, é válido recordar que “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. |