| *Graça Salgueiro

O dia 2 de dezembro de 2007 é uma data que vai entrar para a história da democracia na Venezuela como o “Dia da Vitória” no referendum sobre a reforma constitucional. Soa estranho, para um país que se diz democrático, que um referendum paute o tipo de regime vigente, mas o fato que marca esta data é que, em 9 anos de governo e com uma infinidade de votações, somente desta vez a vontade do povo nas urnas foi respeitada, naquilo que ele escolheu soberanamente.
Os jornais de maior circulação no Brasil estampavam no dia seguinte que a vitória da oposição fora “apertada” porque dias antes, seguindo a pauta do pensamento único esquerdista, a mídia vinha divulgando informações repassadas pelos canais do governo venezuelano, que tinha como certo poder fraudar mais uma vez e consolidar o sonho (ou pesadelo?) de Chávez de perpetuar-se no poder, como seu mentor Fidel Castro, e implantar o regime castro-comunista na Venezuela.
Os centros de votação encerraram suas atividades por volta das 5 da tarde e pouco depois das 6 noite já se sabia o resultado; conforme se esperava, o NÃO havia vencido com 6.585.433 contra 3.265.324 do SIM, embora os números anunciados fossem outros, dando uma margem de diferença de pouco mais de 1%. Chávez não aceitava esta derrota e aguardava o anúncio fraudado, porém o que ele não contava é que desta vez a oposição colocaria fiscais em todas as mesas de votação e acompanharia o escrutínio com redobrada vigilância e que, portanto, conhecia os números reais apurados.
Irado com o resultado Chávez insiste para que seus acólitos prossigam nos planos da fraude mas desta vez as Forças Armadas lhe viraram as costas e negaram-se a referendar a mentira, alegando que se o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) apresentasse a vitória do SIM, o país corria risco de desencadear uma guerra civil sem precedentes e que eles, os Militares, não se voltariam contra seu próprio povo.
No dia seguinte, em pronunciamento feito para os Militares, Chávez alega que a vitória da oposição havia sido um “vitória pírrica”, uma “victoria de mierda”, que “aceitava” democraticamente sua derrota mas ameaçou dar prosseguimento aos seus planos castro-comunistas “por outras vias”. Esta “aceitação democrática” foi alardeada em todos os jornais brasileiros mas o que nenhum deles informou é que, por trás desse gesto “magnânimo”, estava seu guarda-costas pessoal, o agente do G2 cubano conhecido como “Alfredo”, que informava diretamente a Fidel Castro sobre a ampla vantagem do NÃO e este o teria aconselhado a convencer Chávez a “aceitar”. Diante disso, ficou combinado apresentar uma derrota pequena, alterando-se os números, contanto que imperasse a vontade popular pelo NÃO.
Parte desta vitória deve-se à pressão feita pelos destemidos estudantes e parte ao General-em-Chefe Raúl Isaías Baduel, ex-ministro da Defesa e amigo pessoal de Chávez, por sua inegável influência no meio militar, apesar de ser uma figura emblemática e que não inspira muita confiança por conta do seu histórico nas hostes “bolivarianas” tendo inclusive apoiado Chávez no “golpe” de abril de 2002.
Para os organismos de Segurança e Inteligência venezuelanos o poder de Chávez vem declinando vertiginosamente, por conta dos últimos escândalos nacionais e internacionais: o atrito com o Rei de Espanha e com a presidenta do Chile, Michele Bachelet, na Cúpula Iberoamericana; o escândalo da valise com 800 mil dólares confiscados na Argentina e que se destinavam à campanha da então candidata Cristina Kirchner; a retirada como mediador das FARC pelo presidente Uribe e mais recentemente, com os aviões fretados de soldados e armamentos na Bolívia.
Não podemos nos esquecer que, apesar de ter perdido e referendum e estar marcado por toda essa sucessão de acontecimentos nefastos, Chávez ainda tem 5 anos de mandato pela frente e dispõe da Lei Habilitante que lhe permite governar por decreto, sem precisar da aprovação de ninguém, nem mesmo da Assembléia Nacional. Não foi uma vitória “pírrica” como ele alegou, mas os venezuelanos não podem relaxar na luta agora porque o objetivo maior, que é o retorno à democracia plena, com respeito à liberdade e aos direitos humanos, sem perseguições nem presos políticos, só vai ser alcançado quando este ditador for deposto, por bem ou por mal.
É importante lembrar também que Chávez pertence ao Foro de São Paulo e como tal, é amigo e parceiro das FARC, e que a Venezuela (leia-se Chávez, autoridades do governo, do Exército, da Guarda Nacional, aeroportuárias e aduaneiras) é responsável por 30% do controle e distribuição da coca que circula atualmente no mundo. Além disso, num comunicado enviado hoje (18.12) diretamente a Chávez, o comandante das FARC, Manuel Marulanda “Tirofijo”, anunciou sua disposição de entregar 3 dos reféns como “presentinho de Natal”, mas o fará a Chávez ou a quem ele determinar, como um desagravo pela “ofensa” feita por Uribe. Diz Tirofijo num trecho desse comunicado: “A anulação da gestão facilitadora foi um ato de barbárie diplomática contra o legítimo chefe de um Estado irmão e contra o povo venezuelano, solidários com a solicitação feita desde Bogotá”.
Impedir os conchavos entre um proto-ditador comunista e um bando narcoterrorista constitui uma “barbárie diplomática”; seqüestrar, assassinar, mutilar em campos minados e envenenar jovens com droga não. E é com gente assim – FARC e Foro de São Paulo - que Chávez conta para transformar seu atual declínio perante o mundo, numa colossal volta por cima. Os venezuelanos venceram uma batalha mas ainda não a guerra, portanto, todo cuidado é pouco.
É jornalista independente, estudiosa do Foro de São Paulo e do regime castro-comunista e de seus avanços na América Latina, especialmente em Cuba, Venezuela, Argentina e Brasil. É articulista, revisora e tradutora do Mídia Sem Máscara e proprietária do blog Notalatina.
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