| *Olavo de Carvalho
No
discurso que fez durante
o Encontro de Governadores da Frente Norte
do Mer-cosul, em Belém do Pará, no dia 6 de
dezembro, o senhor presidente da República
foi ainda mais explícito do que em 2 de
julho de 2005 - 15º aniversário do Foro de
São Paulo - e a grande mídia nacional foi
ainda mais aplicada e unânime em fingir que
não o ouviu. O que ele disse foi, em
essência, o seguinte:
1. O Foro de São Paulo, fundado por ele, é o
comando estratégico da esquerda continental.
2. Ao longo de 17 anos de ações coordenadas,
a estratégia do Foro mudou o curso da
História na América Latina, não só salvando
da extinção o movimento comunista
internacional mas entregando a ele o poder
sobre várias nações e abrindo caminho para a
sua expansão ilimitada.
Essas afirmações são verdades facílimas de
comprovar. Basta cotejar as atas das
assembléias e grupos de trabalho daquela
misteriosa entidade com o noticiário das
mudanças políticas sobrevindas em escala
continental desde a sua fundação em 1990.
Praticamente tudo o que aconteceu de
importante na política latino-americana na
última década e meia foi tramado e decidido
com antecedência no Foro de São Paulo.
O senhor presidente só mentiu num ponto:
disse que os cientistas sociais terão
dificuldade em entender essa gigantesca
transformação histórica porque “foi tudo
muito rápido”. Não foi rápido coisa nenhuma.
Houve tempo suficiente para compreender o
processo e até para detê-lo. O que faltou
foi informação. Tudo o que se discutiu e se
decidiu no Foro ao longo de 17 anos foi
mantido em segredo, com a colaboração servil
e criminosa da mídia cúmplice e de uma
oposição de fancaria, programada para calar
o bico. Ludibriado, o povo assistiu às
mudanças sem saber de onde vinham, como se
fosse tudo uma inexplicável tempestade de
curiosas coincidências. Agindo por toda
parte sem jamais ser visto, discutido ou
denunciado, o Fo-ro de São Paulo transformou-se
literalmente no governo mágico preconizado
por Antonio Gramsci, investido do “poder
invisível e onipresente de um imperativo
categórico, de um mandamento divino”.
Nunca, na história do mundo, acontecimentos
dessa magnitude permaneceram ocultos perante
tanta gente durante tanto tempo, com
conseqüências tão vastas.
O fato de que, diante desse fenômeno
assombroso, os próprios antipetistas reais
ou fingidos se encolham e prefiram discutir
miudezas administrativas e legais, como se
estivéssemos numa antiga e aprazível
democracia européia onde a política se
tornou mera rotina burocrática, mostra que a
ousadia e o cinismo dos planos monumentais
da esquerda não inibiram em seus adversários
só a coragem de lutar, mas até o desejo de
pensar, o mero impulso de saber. O mal que
cresce em torno deles tornou-se grande
demais para que desejem enxergá-lo. Como
drogados numa boate em chamas, preferem
deixar-se cair pelas poltronas, esperando
que o incêndio passe como se fosse apenas
uma bad trip.
Agora que a luta está praticamente ganha, o
próprio inventor da trama pode abrir o
armário e mostrar a bela coleção de
esqueletos acumulada no escuro ao longo dos
anos.
Ele já não tem motivo para calar. Já ninguém
tem força para punir seus crimes. Aquilo que
foi encoberto pode ser exibido, sem risco,
de cima dos telhados. Apenas, aqueles que
solicitamente colaboraram com a ocultação se
sentem, é claro, um pouco envergonhados de
confessar que seu silêncio obsequioso, tão
constante, tão devoto, se tornou de repente
uma relíquia inútil, desprezada por seu
próprio beneficiário maior.
Filósofo, Escritor e Jornalista
Publicado no JB 13/12 |