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Discurso do presidente Lula, na celebração dos 15
anos do Foro de São Paulo
por Editoria MSM em 13 de outubro de 2006
Resumo: O que dizer de um presidente da República
que, indo contra as leis de seu país, agradece publicamente a uma
obscura organização internacional, da qual participam traficantes de
drogas, terroristas, seqüestradores, e na qual ele próprio é figura
de destaque?
Meus queridos
companheiros e companheiras dirigentes do Foro de São Paulo que
compõem a mesa,
E eu queria
começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que,
junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta
instância de participação democrática da esquerda da América Latina,
precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto
foi importante termos criado o Foro de São Paulo.
E digo isso
porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro
de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função
extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos
em 1990, quando éramos poucos, desacreditados e falávamos muito.
Foi assim que nós,
em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente
Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução
tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela.
E só foi possível
graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação
política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com
outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos
foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível
construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do
que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez
como presidente da Venezuela.
Foi assim que nós
pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do
movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento
sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São
Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as
pessoas entendessem qualquer interferência política.
E hoje nós somos
um continente em que a esquerda deu, definitivamente, um passo
extraordinário para apostar que é plenamente possível, pela via
democrática, chegar ao poder e exercer esse poder.
E é por isso que
eu, talvez mais do que muitos, valorize o Foro de São Paulo, porque
tinha noção do que éramos antes, tinha noção do que foi a nossa
primeira reunião e tenho noção do avanço que nós tivemos no nosso
continente, sobretudo na nossa querida América do Sul.
Se não fosse
assim, o que teria acontecido no Equador com a saída do Lucio
Gutiérrez? Embora o Presidente tenha saído, a verdade é que o
processo democrático já está mais consolidado do que há dez anos
atrás.
O que seria da
Bolívia com a saída do Carlos Mesa, recentemente, se não houvesse
uma consciência democrática mais forte no nosso continente entre
todas as forças que compõem aquele país?
A vitória de
Tabaré, no Uruguai: quantos anos de espera, quantas derrotas, tanto
quanto as minhas.
O que significa a
passagem da Argentina?
Os chilenos,
depois de tantas e tantas amarguras, num período que muita gente não
quer nem se lembrar, estão agora prestes a, pela quarta vez
consecutiva, reeleger um presidente, eu espero que uma presidente.
E o que nós
precisamos é trabalhar para consolidar, para que a gente não permita
que haja qualquer retrocesso nessas conquistas, que são que nem uma
escada: a gente vai conquistando degrau por degrau.
E esses
companheiros que tiveram a coragem de assumir essa tarefa, eu acho
que hoje podem estar orgulhosos, porque valeu a pena a gente criar o
Foro de São Paulo.
Nós não
conseguiremos fazer as transformações que acreditamos e por que
brigamos tantos anos em pouco tempo. É um processo de consolidação.
Eu quero dizer uma
coisa para vocês: não está longe o dia em que o Foro de São Paulo
vai poder se reunir e ter, aqui, um grande número de presidentes da
República que participaram do Foro de São Paulo.
Vejam que os
companheiros do Movimento Sem-Terra fizeram uma grande passeata em
Brasília. Organizada, muito organizada. E todo mundo achava que era
um grande protesto contra o governo. O que aconteceu? A passeata do
Movimento Sem-Terra terminou em festa, porque nós fizemos um acordo
entre o governo e o Movimento Sem-Terra, pela primeira vez na
história, assinando um documento conjunto.
Esses dias,
fizemos não sei quantos acordos, 26 acordos, com a Venezuela. Os
partidos têm que se encontrar, os parlamentares têm que se
encontrar, o Foro de São Paulo tem que exigir cada vez mais a
criação de um parlamento do Mercosul para que a gente possa
consolidar definitivamente o Mercosul, não como uma coisa comercial,
mas como uma instância que leve em conta a política, o social, o
comercial e o desenvolvimento.
Esse trabalho é um
trabalho que leva anos e anos. E nós apenas estamos começando.
Por isso, meus
companheiros, minhas companheiras, saio daqui para Brasília com a
consciência tranqüila de que esse filho nosso, de 15 anos de idade,
chamado Foro de São Paulo, já adquiriu maturidade, já se transformou
num adulto sábio. E eu estou certo de que nós poderemos continuar
dando contribuição para outras forças políticas, em outros
continentes, porque logo, logo, vamos ter que trazer os companheiros
de países africanos para participarem do nosso movimento, para que a
gente possa transformar as nossas convicções de relações Sul-Sul
numa coisa muito verdadeira e não apenas numa coisa teórica.
E eu estou
convencido de que o Foro de São Paulo continuará sendo essa
ferramenta extraordinária que conseguiu fazer com que a América do
Sul e a América Latina vivessem um dos melhores períodos de
democracia de toda a existência do nosso continente.
Muito obrigado a
vocês. Que Deus os abençoe e que eu possa continuar merecendo a
confiança da Coordenação, que me convide a participar de outros
foros. Até outro dia, companheiros. (Extrato)
São Paulo-SP, 02
de julho de 2005
Comentário
A Confúcio, de
passagem no Estado de Wei, quando perguntaram o que faria primeiro,
se convidado a governar aquele país, respondeu: "Evidentemente, como
primeiro passo, faria com que as coisas fossem chamadas pelos seus
verdadeiros nomes". Seu discípulo ficou muito intrigado; e Confúcio
continuou: "Por que não pode compreender? Pois se as coisas não
fossem chamadas por seus verdadeiros nomes, as proposições seriam
enganosas e quando as proposições são enganosas, nada pode ser
realizado".
O que preocupava
Confúcio era a extrema confusão dos termos, os eufemismos e
circunlocuções dos diplomatas daqueles tempos, e as exageradas
pretensões que os daqueles dias se arrogavam para si próprios.
Chamar as coisas
por seus verdadeiros nomes...
Como Confúcio
chamaria o "Foro de São Paulo"? Que nome daria a uma entidade
supranacional, criada por Fidel Castro e aplaudida por Luis Inácio
Lula, com a intenção de reunir os partidos e organizações de
esquerda, a maioria com tendências marxistas-leninistas
revolucionárias, patrocinada pelo Partido Comunista Cubano e pelo
Partido dos Trabalhadores do Brasil?
Como Confúcio
nomearia um indivíduo que participasse de um encontro com alguns
fora-da-lei onde são elaboradas resoluções e recomendações que
reafirmam os objetivos socialistas com a proposta de "fazer dar
certo na América Latina o que fracassou no leste europeu?".
O atual Presidente
da República, Luiz Inácio Lula da Silva, deve saber o nome
verdadeiro do Foro. Afinal ele discursou na celebração do 15º
aniversário do Foro de São Paulo e terminou dizendo: "...que eu
possa continuar merecendo a confiança da coordenação, que me convide
a participar de outros foros". J. C. CROCE - CEL
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