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Estado de São Paulo -
14/06/2008
'Nunca quis voltar para Cuba'
Cubano revela que, depois de fugir
durante o Pan do Rio, foi obrigado a
pedir para voltar a seu país. Agora,
está na Alemanha
Jamil Chade
“Democracia? Como assim?” O boxeador
cubano ex-campeão mundial amador
Erislandy Lara, de 25 anos, escapou
de Havana e, na semana passada,
conseguiu chegar à Alemanha, em uma
viagem organizada e financiada por
uma empresa de boxe, que o contratou.
Essa não foi a primeira vez que Lara
tentou ir embora de Cuba. Em 21 de
julho do ano passado, ele e
Guillermo Rigondeaux (bicampeão
olímpico e mundial) abandonaram a
Vila Pan-Americana no Rio. Acabaram
presos em Araruama (RJ) e entregues
à Polícia Federal por estarem com o
visto vencido e sem passaporte,
segundo os policiais. Dois dias
depois, foram deportados em um avião
fretado pelo governo cubano para
Havana.
Onze meses após a fracassada
tentativa de desertar durante os
Jogos Pan-Americanos do Rio, Lara
conta em entrevista ao Estado como
conseguiu fugir, como era sua vida
desde o incidente no Rio e revela
que, de fato, o objetivo no
Pan-Americano era o de não retornar
mais a Cuba. Mas pergunta: “Seria
arriscado voltar ao Brasil?” Lara
ainda deixa claro que sequer sabe o
significado exato de democracia. Eis
os principais trechos da entrevista,
dada por telefone de Hamburgo.
Como você se sente agora, em outro
país?
Eu me sinto como se fosse uma nova
pessoa. Estou bem e muito feliz.
Por que você decidiu deixar Cuba?
Porque simplesmente eu não podia
mais ser boxeador. O governo me
prometeu, quando voltei do Brasil,
que me apoiaria, que me daria casa e
eu poderia lutar. Eu queria ir a
Pequim. Mas isso nunca ocorreu. Os
dias foram passando e me diziam:
“Espere, espere.” Fiquei esperando e
agora é tarde demais para pensar em
ir à Olimpíada. Além disso, nada do
que me prometeram foi cumprido.
Disseram que me apoiariam. Mas, um
ano depois, continuava sem nada, sem
trabalho e sem lutar. Foi tudo uma
mentira. O governo nos enganou desde
o primeiro minuto.
E como você sobrevivia?
Alugava minha moto e cobrava por
isso. Foi assim que sobrevivi por
esses meses, com pouco dinheiro.
Pensei que poderia voltar a lutar,
como disse o governo. Mas isso nunca
ocorreu desde os incidentes no Rio.
Você não tem medo de que algo ocorra
com sua família?
Eles não podem fazer mais nada. Eu é
que era o alvo e já estou fora.
Agora, quero trazer minha mulher
logo. Minha família me apoiou muito
na decisão de deixar Cuba.
Como foi que conseguiu escapar?
Eu mesmo fiquei surpreendido. A
empresa (Box Arena) me chamou e
disse que tinha organizado tudo com
uns cubanos. Fui de madrugada a uma
praia nas proximidades de Havana.
Não quero revelar o nome desse local
porque sei que há outros cubanos que
querem escapar por essa região e não
seria bom que o governo soubesse.
Temos de ajudar nossos irmãos. Temos
de proteger esses cubanos. Uma
lancha me buscou e viajamos por 12
horas até Cancún, no México. O tempo
estava muito ruim e a viagem foi
difícil, com tormentas enormes. Mas
estava confiante de que conseguiria
sair. Corremos um grande risco.
Quem foi que organizou tudo isso?
A empresa que me contratou na
Alemanha, a Box Arena, de Hamburgo.
Quando você abandonou a Vila nos
Jogos Pan-Americanos, disseram que
vocês queriam voltar para Cuba e que
tinham apenas se perdido. O que
ocorreu de fato naquele momento?
Quando deixamos a Vila
Pan-Americana, o objetivo era mesmo
escapar de Cuba e não voltar mais
para Havana. Não há dúvida sobre
isso. Não queríamos voltar. Mas as
circunstâncias não eram boas. Não
tivemos nenhum apoio e, sem ninguém
para contactar, fomos obrigados a
pedir para voltar para Cuba. Não
tínhamos outra alternativa.
Estávamos sem dinheiro e nem
sabíamos para onde ir. Não posso
recriminar a polícia brasileira.
Gostei muito do Brasil e já estou
planejando ir de férias para o Rio
de Janeiro entre agosto e setembro.
Você acha que seria seguro ou
arriscado para mim? Haveria algum
problema?
Como você avalia a situação política
de Cuba e da falta de democracia
plena?
Democracia? Como assim?
Se existe ou não um regime
democrático e se existe a
possibilidade de o povo ter voz e
voto nas decisões do país.
Ah, isso? Claro que não existe essa
possibilidade. É o governo quem dita
todas as regras. Tudo passa pelo
governo. Não há liberdade. Eles são
os que dizem o que podemos e o que
não se pode fazer.
Você pensa um dia voltar para Cuba?
Não. Não volto mais.
E qual é seu plano de carreira no
boxe?
Quero lutar por mais dez anos. Tenho
apenas 25 anos e poderei ainda
conquistar muitos títulos.
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