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Estado de São Paulo -
17/06/2008
CNBB quer 'exportar' movimento dos
sem-terra para a África
Grupo de representantes da
Conferência Episcopal Africana chega
em julho para conhecer funcionamento
da CPT
Roldão Arruda
A Conferência Episcopal da África do Sul
enviará ao Brasil, no mês que vem, um
grupo de representantes para conhecer a
estrutura e o funcionamento da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), que é vinculada
à Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB), e também para manter
contatos com o Movimento dos Sem-Terra
(MST). De acordo com explicações do
padre Nelito Dornelas, assessor da CNBB
para o setor de Superação da Miséria e
da Fome e um dos encarregados de
organizar a visita, os africanos vêm
aprender com os brasileiros.
“Querem implantar lá a metodologia
desenvolvida pela CPT”, disse o padre.
“Também estão interessados em ter
missionários brasileiros que ajudem os
trabalhadores rurais a organizarem seus
movimentos, como foi feito no Brasil.
Como se sabe, o MST é filho da CPT.”
De acordo com o padre, desde o fim do
apartheid, o regime racista sul-africano,
há 14 anos, a Conferência Episcopal
tenta estimular a redistribuição de
terras. Os bispos chegaram até a doar as
terras da Igreja aos sem-terra. “Até
agora, porém, não viram resultados: a
reforma agrária, como plataforma
política, continua restrita a pequenos
grupos, enquanto a terra continua
concentrada nas mãos de poucos
proprietários”, disse o assessor da CNBB.
Durante o apartheid, os brancos
controlavam 87% das terras cultiváveis
no país. Estima-se que ainda controlem
pelo menos 80% - o que faz da reforma
agrária uma das hipotecas mais pesadas
do antigo regime.
Diante desse quadro, os bispos
sul-africanos estudam a possibilidade de
levar para o país a experiência da CPT,
que foi criada há 33 anos por setores
progressistas da CNBB, ligados à
Teologia da Libertação, e hoje está
presente em quase todo o território
nacional, com 130 equipes de base. No
fim dos anos 70, a CPT ajudou a criar o
MST, organização que até hoje conta com
o apoio de setores do clero e do
episcopado.
“Se não fosse a CPT, a reforma agrária
não teria sido colocada na pauta
política do País com a força que se viu
nas últimas décadas”, ressaltou o padre
Nelito. “A direção da luta está nas mãos
dos trabalhadores, mas a CPT continua
apoiando e promovendo a bandeira da
reforma.”
Na sexta-feira, em Brasília, o
secretário-geral da CNBB, d. Dimas Lara
Barbosa, reuniu-se com um grupo de
bispos, padres e leigos ligados à CPT e
à área social da Igreja para discutir a
visita. “Ficou acertado que eles vão
conhecer os trabalhos de base da Igreja
e também os assentamentos e acampamentos
do MST”, contou um dos participantes da
reunião, o secretário da coordenação
nacional da CPT, Antonio Canuto.
EQUIVALENTE
Por fora da área oficial da Igreja, o
MST já tenta manter contatos com os
sul-africanos, especialmente com seu
equivalente no país, o Movimento dos
Camponeses Sem-Terra, criado em 2002. Os
contatos são feitos por meio da Via
Campesina, organização internacional que
tenta estimular ações pela reforma
agrária e contra o agronegócio em várias
partes do mundo.
A Via Campesina critica o modelo de
reforma agrária adotado na África do Sul
em 1994, com o apoio do Banco Mundial.
Em vez de distribuir terras, como no
Brasil, ele estimula programas de compra
e venda entre trabalhadores mais pobres.
A comitiva que virá ao Brasil em julho
deve ser coordenada por um bispo e terá
a presença de especialistas leigos da
área social.
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